Guerra na Ucrânia. Prémio Nobel da Paz diz que Putin nunca será vencedor

Guerra na Ucrânia. Prémio Nobel da Paz diz que Putin nunca será vencedor

Dmitry Muratov foi galardoado em 2021 e diz que o presidente russo não pode reclamar vitória "quando duas nações eslavas massacraram mais de um milhão de pessoas".

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Em entrevista à BBC, Dmitry Muratov diz que "podem destruí-la [Ucrânia], mas não podem conquistá-la" | Alexander Nemenov - AFP

É com um olhar de jornalista que Dmitry Muratov, um dos vencedores do prémio nobel da paz em 2021, defende que Vladimir Putin nunca vai sair vencedor da guerra que opõe a Rússia à Ucrânia.

Numa entrevista à BBC, disponível no YouTube do canal público de televisão britânico, Muratov refere que a intenção do Kremlin que em 2022 previa uma breve e bem-sucedida "operação militar" acabou por se transformar no conflito mais sangrento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

"Nunca haverá vitória", assegura Dmitry. "O que está a acontecer há quase cinco anos, não importa como termine, não pode mais ser considerado uma vitória", referiu numa entrevista conduzida pelo editor da BBC Rússia, Steve Rosenberg.

"Não pode ser considerada uma vitória quando duas nações eslavas massacraram um milhão de pessoas. Ou mais de um milhão", fez questão de referir. "Podem destruí-la, mas não podem conquistá-la", assegurou.

Já sobre a eventual utilização de armas nucleares nesta guerra, Muratov é assertivo: "Todos os especialistas políticos que dizem Putin pensa isto ou Putin tem medo daquilo, são todos charlatães", referiu. "É como a astrologia. Ninguém sabe o que se passa na cabeça de Vladimir Putin", adiantou.
"Vejo as coisas apenas como jornalista. Eu estudo big data. E desde o início deste ano, a necessidade de usar armas nucleares foi mencionada mais de 500 vezes. Quando os malucos dizem isso, eu não dou atenção. Mas, agora, eu ouvi o assunto a ser discutido na televisão estatal. E no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, um evento do governo, um dos palestrantes defendeu o uso de armas nucleares como sendo algo favorável e algo bom”, salientou.

O vencedor do Nobel da paz também recusa aceitar que a segurança da Rússia tenha aumentado, como fez querer Putin quando anunciou em fevereiro de 2022 a invasão em massa da Ucrânia.

"Diga-me, a segurança aumentou?", questiona Dmitry Muratov.

"Com drones ucranianos a atacar armazéns da Wildberries, [a maior retalhista online da Rússia]; com a crise do petróleo, a interrupção da internet móvel, os presos políticos? A segurança aumentou ou não?", retorquiu.

Dmitry Muratov refere que houve uma perseguição à maioria dos formadores de opinião pública. Foram considerados "agentes estrangeiros, extremistas ou terroristas".

Desde o início da operação militar especial da Rússia na Ucrânia, "pelo menos 1.500 pessoas estão agora na prisão por se terem manifestado contra a política estatal vigente. É três vezes mais do que durante os tempos brutais da KGB na URSS", estimou Muratov.
Jornalista galardoado com Nobel da paz

A entrevista ao Nobel da Paz, Dmitry Muratov, foi feita na redação do jornal opositor do regime russo, Novaya Gazeta. Muratov foi cofundador da publicação há mais de 30 anos e chegou a ocupar o cargo de editor-chefe.

O jornal deixou de ter edição impressa porque o Governo russo decretou a nacionalização das gráficas. O Novaya Gazeta ainda mantém uma presença online, mas deverá ser por pouco tempo. As autoridades bloquearam o acesso ao site e só está acessível fora da Rússia, com a ajuda de VPN (redes virtuais privadas usadas para contornar as restrições).

A publicação tornou-se numa referência no jornalismo independente na Rússia e publicava reportagens que denunciavam violações dos direitos humanos e também casos de corrupção de altos cargos dirigentes russos.

O Comité Nobel Norueguês atribuiu a Muratov o prémio nobel da paz em 2021 (nesse mesmo ano também foi atribuído o mesmo galardão à jornalista filipina Maria Ressa) e destaca os esforços "para salvaguardar a liberdade de expressão".

A academia salientou nesse ano que "seis jornalistas [do Novaya Gazeta] foram mortos, incluindo Anna Politkovskaya, que escreveu artigos reveladores sobre a guerra na Chechénia".

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